22.12.09

COP-15 ou o fim do começo ou vice-versa

Acho que nem queria pensar sobre a COP-15. Minha monografia (análise crítica da eficácia da proteção do meio ambiente através dos mecanismos criados pelo Protocolo de Quioto, com base na filosofia de Herbert Marcuse e no marxismo ecológico) parece que me deixou mais desacreditada. Isso porque a questão é sempre o dinheiro, o lucro, a expansão disfarçada de desenvolvimento. O tal do desenvolvimento sustentável é uma ladainha sem tamanho.

A verdade é que ninguém estava em Copenhague a fim de fazer alguma concessão para o futuro. Parece que todos esperam por uma salvação, como a Disney já emplacou no Wall-E, quando aqui estiver inabitável teremos um outro lugar para vivermos e dane-se tudo (a mensagem final do filme pode ser positiva, mas não deixa de jogar tudo pra frente, como algo longínquo, uma lição a ser repassada aos pequenos, mas sem algo prático nem mensurável a se fazer para evitar o drama).

É um descaso tão grande. Uma inversão de valores absurda. O dinheiro virou a razão de vida do ser humano. O dinheiro está associado não só às mercadorias, mas a todas as outras coisas, como felicidade, amor, conforto, poder, satisfação, etc.

E aí? Se você tem essas coisas sem o dinheiro o que acontece? Você é taxado de pobre infeliz que se engana. Isso porque existe todo um trabalho de dois séculos (talvez cinco séculos) em que a manipulação da sociedade se dá, gradativamente, com o objetivo de embutir em sua mente necessidades falsas. A felicidade é o ter alguma coisa. Coisa sempre no sentido de objeto, ligada ao processo de coisificação de pessoas e sentimentos. Tudo um grande shopping.

A depressão de entender isso e se ver quase atado a essa grande massificação é soberba. Claro que existem pessoas lúcidas, mas elas são peças fora do tabuleiro. Os grandes ousiders, os alienados do mundo real (o nome da nossa moeda já é bem característico), e se tudo der certo, conforme os ditames do mundo concreto, não há nada melhor do que algum remédio que o psiquiatra receite de bom grado e que os faça não sentir mais nada.

29.11.09

De como se deve coser

Agora estou toda feita
Põe aqui e tira dali
Mexe um pouco para o lado
Solta em cima e
deixa preso embaixo

No meio tudo solto...

Assim eu me sinto mais leve
Assim sou mais minha
Nada mais a ser apropriado
Só eu tenho as medidas
A linha e a agulha

Espero pelo bordar

O vigilante da tarde

Via tudo. Aquele mundo era vasto. As cores fortes. Muitas coisas a que chamam de objetos e tudo muito bem espalhado. Naquela manhã alguém fechou-lhe a vista por algum tempo e quando retomou a observação havia comida e algo mais que trouxera certa pressão à seu habitat.
Virou um pouco e enxergou a parede branca, meio suja. Não sabia que era parede, mas percebia a sujeira pela memória de um outro branco mais inteiro. À tarde ficou durante muito tempo acuado. Muitas pessoas passavam por ali e ele recebia o borrão das cores da pele e de roupas novas, velhas, sujas ou não. De novo, ele não saberia dizer.
Gostava mesmo de quando não havia ninguém muito perto, mas sim dispostas ao longe. Observava que existiam coisas que eram paradas e outras não. Também percebia que algumas se mexiam, mas só um pouco, somente parte delas e que, por muitas vezes, faziam movimentos contínuos. Vez ou outra ainda duas coisas se moviam juntas: uma parada por uma que se mexia ou duas que se mexiam mais ou menos juntas. Esses movimentos eram seus favoritos. Quase sempre aconteciam inesperadamente. E nunca eram iguais. De resto era tudo parado e espalhado.
O que odiava era quando sentia parte deles se movendo muito perto de si. Aquelas coisas que veem quase fazendo raio-x de seu corpo dourado. Aborrecia-se também quando davam batidas em sua casa. Tudo remexia e acabava tonto. Nessas horas queria pular em cima daquilo que lhe agitava a vida, mas não conseguia sair! Por vezes pulava e batia no teto.
- Mamãe, olha! Ele é saltador!
- Pare de bater no aquário, Marquinhos...

22.10.09

Mulher moderna

O dia inteiro foi acompanhada por aquele nó na garganta. Uma pequena bola que fazia pressão em sua goela, obrigando-a engolir sucessivamente durante um dia inteiro, sem sucesso. No caminho de casa lembrou do pão, que já estava duro, precisaria comprar um novo. Ele gostava de baguete, mas sem gergelim. Ela comprou o pão e lhe pediu que trouxesse o queijo, mas levou o último mesmo assim, escusando previamente o homem por sua falta.
Quando ele chegou, de camisa nova e braços livres, ela sorriu e pousou na mesa posta, com toalha branca, o pão e o queijo. Ele pediu a faca, no que ela prontamente lhe trouxe e observou seu cuidadoso corte. Ele fez seu sanduíche, pão aberto no meio com grossas fatias daquele queijo de buracos, colocou no prato e sentou-se.
A cada mastigada do homem ela sentia o pão e o queijo entalando em seu nó, agregando-se à massa imaginária que lhe oprimia goela, peito, quadril, cochas e calcanhares. Decidiu servir o vinho, no que ele logo ergueu a taça, solícito, receptivo. Sorveu do vinho caro em grandes goles, feito água, paladar irresoluto, e disse-lhe que sentia saudades de lamber sua pele. Ela, rubra, sentou-se à mesa e esperou. Ela e o nó. Solícitos.

19.10.09

Inominado (depois de amanhã)

Faltam palavras
Elas são parcas e falhas
São fanhas
De rima malgrada
Não são amplas quando devem
Sempre quiméricas quando pequenas

Penso na casa do teu botão
e isso parece imenso na mente
mas não é mais que um ponto
de tricô, talvez de linho

E teço essa trama da mente
num sono que não me permite dormir
Engulo as horas da alvorada
nesse pequeno apetite famélico

Peco no pesar incessante
de te imaginar nos lugares mínimos
E de tão curtos espaços me perco na mente
Esqueço que poderia
não ser sobre você meu pensamento
Por mais que seja
ainda hoje
E talvez amanhã