16.7.10

A distância

A primeira vez que recebi uma carta sua fiquei logo eriçado e passei, depois de sorver seu conteúdo, a virar a carta em diagonal, para observar suas belas formas...a letra gorda, redonda e bem traçada, tão próxima das curvas de seu corpo. Depois pousava o papel na mesa e minha face ao lado dela, vendo pouco e embaçado, sentindo o cheiro do papel e da tinta de sua caneta.

Naqueles meses eu te amei através de sua tinta e do suor de sua mão no papel e das curvas de seus “as” tão mal feitas e excitantes! Vibrei à cada ponto seu. Chorei nas exclamações e interrogações, nas primeiras de amor, nas segundas de dúvida...

Salguei suas cartas com minhas lágrimas e, quando não recebi mais outras, passei a lamber seu papel e tinta e o sal de minha tristeza, que se acumulava a cada linha, a cada lida, a cada interpretação de sua partida. 

No fim, lambia os envelopes e os jogava na caixa de correio, na esperança de te receber e sorver num novo dia.

14.7.10

Ano novo feliz

Estava na praia, finalmente. Aquela areia em seus dedos do pé, fazendo-lhe cócegas, moldando em suas solas e o vento que trazia um pouco dela em seus tornozelos e canelas.

Ao seu redor aquele monte de gente que cantava as músicas tradicionais e estourava champanhes, cervejas, vodkas e afins, dando banhos como os de campeões de corrida de carros.

Já era hora, então rumou para o mar, meio ensurdecida pelos fogos que estouravam já há algum tempo. Naquela água gelada teve que adentrar por alguns metros, não havia quase ondas no mar passivo do ano novo.

Chegou a um ponto limítrofe, se fosse mais fundo não conseguiria pular nas ondas e sim afundar-se nelas. Esperou...esperou...a primeira: juntou os pés, pegou impulso, saiu do chão e, quando voltou, tinha uma alga entre as coxas. Subiu o vestido e tirou a alga, mas a segunda onda bateu-lhe nos peitos. Voltou um pouco, ignorou a contagem, aguardou e pulou: seu pé encontrou uma bela concha, deu seu primeiro “ai” do ano. Pulou num pé só a terceira, mas torceu-o ao aterrissar. Apoiou no da concha e juntou forças para a quarta: uma garrafa entrou no seu caminho, batendo-lhe nos joelhos. Após o primeiro “merda” do ano, foi mais para trás (o mar parecia ter sido acordado), na quinta viu um sangue escorrer do seu pé, que ardia soberbamente com o sal, mas já era a sexta, que bateu-lhe de novo no peito. Ignorou-a. Também teve que ignorar sua transparência, afinal, ninguém a obrigara a colocar vestido branco sem sutiã. Pulou a “sexta” em meio a dor e a sétima foi ainda mais sofrida...enquanto buscava a terra firma a oitava bateu-lhe na bunda, encorajando-a.

- feliz ano novo, gatinha! – escutou ela na areia.

Quando levantou os olhos viu uns que a miravam na altura dos peitos. Sorriu sem graça, protegendo-os com o braço do estranho de olhar guloso e ele quis abraçá-la, mas o seu “quis” já era com os braços circundando, enquanto ela sentia seu cheiro de cerveja e wisky e energético e suor e mar e observava o sangue fluir através de seus pés ardidos, retribuiu:

- feliz ano novo.

13.7.10

Amanhã pode não ser outro dia


Num minuto ele estava lá e depois não mais. Assim mesmo. Simplesmente apagou. Eu não estava do lado, fiquei sabendo depois, por fontes descuidadas que jogaram o fato ao relento, como motivo pelo qual não puderam passar por aquela rua durante a tarde. Eles me disseram que seu rosto estava virado para o chão, olhos no asfalto. Seu corpo deve ter sentido todos os tremores dessa crosta terrestre fantasiada de cinza chumbo.

Nem tinha eu porque me abalar. Havia conhecido o infeliz há poucos minutos. Tinha acabado de quitar o apartamento em que, disse ele, morava com a mulher e quatro filhos. Quatro! A mulher deu sorte que pelo menos ele conseguiu pagar pelo imóvel; morreu, mas tirou da família uma boa dose da dor de cabeça.

Amanhã vou pegar o código de pagamento dele, talvez para tentar rever o olhar de felicidade que ele trazia. Tinha separado o dinheiro certo, preocupado mais em não dar trabalho do que com a pressa, já que ninguém pode ter pressa para morrer de tiro em assalto a banco. A porta não travou, como sempre. Só vejo barrados na porta alguns estudantes, velhinhas confusas e algumas pessoas com placas de metal na cabeça.

O pessoal do banco diz que eu sou sentimental, eu os vi comentando: ”O Vieira liga muito pras coisas”; já a dona Judite, que faz o nosso café, diz que eu vou sofrer muito se continuar desse jeito,  pensativo. Na maioria do tempo eu acho que não ligo para essas coisas, elas nunca ficam na minha cabeça. Isso de pensar, minha avó já dizia “quem pensa de mais faz de menos”. Já eu trabalho bem todos os dias, obrigado. Se eu tivesse faltado hoje talvez o Taveira estivesse no caixa e efetuasse o pagamento, mas eu sei que ele só ia ligar para o acontecimento pelo fato da rua estar lotada. Ele ia comentar, só para se incluir na história “conheci o homem, coitado. Você vê que coisa?”. Até acredito que ele pudesse se passar por sentimental para comer de novo a Márcia do jurídico.

Algum dia desses poderá ser a minha vez. Não, eu nunca comi a Márcia do jurídico, é que não fui feito à prova de balas. E aí algum senhor poderá dizer que eu efetuei o pagamento da última parcela do computador dele, que eu proporcionei a sua entrada na nova geração, século XXI com internet. O senhor vai dizer que foi a última boa ação que eu fiz e que ele espera que eu tenha morrido feliz pela minha última utilidade. Mas a história nunca dura mais que uma semana e as manchas de sangue no chão sempre são limpas logo depois de retirarem o corpo. Eu só tenho medo de ter que olhar para esse piso de mármore frio. Tenho medo de esfriar junto dele.

22.12.09

COP-15 ou o fim do começo ou vice-versa

Acho que nem queria pensar sobre a COP-15. Minha monografia (análise crítica da eficácia da proteção do meio ambiente através dos mecanismos criados pelo Protocolo de Quioto, com base na filosofia de Herbert Marcuse e no marxismo ecológico) parece que me deixou mais desacreditada. Isso porque a questão é sempre o dinheiro, o lucro, a expansão disfarçada de desenvolvimento. O tal do desenvolvimento sustentável é uma ladainha sem tamanho.

A verdade é que ninguém estava em Copenhague a fim de fazer alguma concessão para o futuro. Parece que todos esperam por uma salvação, como a Disney já emplacou no Wall-E, quando aqui estiver inabitável teremos um outro lugar para vivermos e dane-se tudo (a mensagem final do filme pode ser positiva, mas não deixa de jogar tudo pra frente, como algo longínquo, uma lição a ser repassada aos pequenos, mas sem algo prático nem mensurável a se fazer para evitar o drama).

É um descaso tão grande. Uma inversão de valores absurda. O dinheiro virou a razão de vida do ser humano. O dinheiro está associado não só às mercadorias, mas a todas as outras coisas, como felicidade, amor, conforto, poder, satisfação, etc.

E aí? Se você tem essas coisas sem o dinheiro o que acontece? Você é taxado de pobre infeliz que se engana. Isso porque existe todo um trabalho de dois séculos (talvez cinco séculos) em que a manipulação da sociedade se dá, gradativamente, com o objetivo de embutir em sua mente necessidades falsas. A felicidade é o ter alguma coisa. Coisa sempre no sentido de objeto, ligada ao processo de coisificação de pessoas e sentimentos. Tudo um grande shopping.

A depressão de entender isso e se ver quase atado a essa grande massificação é soberba. Claro que existem pessoas lúcidas, mas elas são peças fora do tabuleiro. Os grandes ousiders, os alienados do mundo real (o nome da nossa moeda já é bem característico), e se tudo der certo, conforme os ditames do mundo concreto, não há nada melhor do que algum remédio que o psiquiatra receite de bom grado e que os faça não sentir mais nada.

29.11.09

De como se deve coser

Agora estou toda feita
Põe aqui e tira dali
Mexe um pouco para o lado
Solta em cima e
deixa preso embaixo

No meio tudo solto...

Assim eu me sinto mais leve
Assim sou mais minha
Nada mais a ser apropriado
Só eu tenho as medidas
A linha e a agulha

Espero pelo bordar