O vazio não se limitava mais às lacunas, já tomava grandes
proporções, quase preenchendo as sensações nulas com nada mesmo.
Começou com um pequeno desespero, uma incapacidade
momentânea de sentir um ou outro acontecimento banal. Depois atingiu escalas
mais profundas, uma indefinição de tempo e propósito. Uma agonia de não
lembrar-se mais a que veio. Agora ela já lutava por uma lágrima qualquer, mesmo
que fosse pelo motivo errado.
- Isso não é TPM? – O amigo, tão ciente de que os
sentimentos ali não mais perduravam, nem ao menos temeu fazer a pergunta. Tinha
semblante de genuína preocupação.
- Juro que não, sinto até saudades dela, de comer meus
bombons, de chorar assistindo comerciais ou vendo o céu nublado. Juro. – ela
fitou-o sem saber ao certo porque não o mandara às favas, pois tinha controle
sobre seu corpo, mas isso seria ridículo, já que, justamente, não tinha mais
controle sobre como não sentia.
- Começou quando isso?
- Não me lembro da data. Não teve acontecimento, nada...não
teve nada.
- Desde quando não tem nada?
Seu olhar se perdeu num passado insípido, sem estertores. O
túnel da memória parecia ter adquirido tons pastéis de tão sem graça.
-Você me conhece há quanto tempo mesmo? – com esforço
hercúleo ela franziu o cenho.
- Tempo suficiente para saber que aconteceram muitas coisas
a que agora você chama de nada.
A resposta, com propriedade, do amigo nem lhe deixara
irritada. Isso era irritante. E em suas indagações internas nem deu importância
ao fato de que ele, com suas mãos firmes, lhe apertava o antebraço esquerdo,
subindo devagar até seu braço, que aparentemente merecera ganhar outro apertão
e o ombro outro, o pescoço o toque mais leve dos dedos até alcançar seu lábio
inferior, que fora prensado entre os dedos indicador e médio.
À falta repentina do toque e do arrepio, ela abriu seus
olhos e observou o sorriso convencido no rosto do amigo.
- Tá explicado – disse ele, garboso, aproximando-se de sua
vítima e colocando as mãos em sua cintura, enlaçando-a como uma jiboia
preparando o bote fatal.
Ela, finalmente presa ao corpo, rendida, mal teve tempo de
expressar seus ressuscitados sentimentos:
- Desgraçado, filho da...
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