13.1.13

"Reblog" 2010: Machismo Querido


O vazio não se limitava mais às lacunas, já tomava grandes proporções, quase preenchendo as sensações nulas com nada mesmo.
Começou com um pequeno desespero, uma incapacidade momentânea de sentir um ou outro acontecimento banal. Depois atingiu escalas mais profundas, uma indefinição de tempo e propósito. Uma agonia de não lembrar-se mais a que veio. Agora ela já lutava por uma lágrima qualquer, mesmo que fosse pelo motivo errado.
- Isso não é TPM? – O amigo, tão ciente de que os sentimentos ali não mais perduravam, nem ao menos temeu fazer a pergunta. Tinha semblante de genuína preocupação.
- Juro que não, sinto até saudades dela, de comer meus bombons, de chorar assistindo comerciais ou vendo o céu nublado. Juro. – ela fitou-o sem saber ao certo porque não o mandara às favas, pois tinha controle sobre seu corpo, mas isso seria ridículo, já que, justamente, não tinha mais controle sobre como não sentia.
- Começou quando isso?
- Não me lembro da data. Não teve acontecimento, nada...não teve nada.
- Desde quando não tem nada?
Seu olhar se perdeu num passado insípido, sem estertores. O túnel da memória parecia ter adquirido tons pastéis de tão sem graça.
-Você me conhece há quanto tempo mesmo? – com esforço hercúleo ela franziu o cenho.
- Tempo suficiente para saber que aconteceram muitas coisas a que agora você chama de nada.
A resposta, com propriedade, do amigo nem lhe deixara irritada. Isso era irritante. E em suas indagações internas nem deu importância ao fato de que ele, com suas mãos firmes, lhe apertava o antebraço esquerdo, subindo devagar até seu braço, que aparentemente merecera ganhar outro apertão e o ombro outro, o pescoço o toque mais leve dos dedos até alcançar seu lábio inferior, que fora prensado entre os dedos indicador e médio.
À falta repentina do toque e do arrepio, ela abriu seus olhos e observou o sorriso convencido no rosto do amigo.
- Tá explicado – disse ele, garboso, aproximando-se de sua vítima e colocando as mãos em sua cintura, enlaçando-a como uma jiboia preparando o bote fatal.
Ela, finalmente presa ao corpo, rendida, mal teve tempo de expressar seus ressuscitados sentimentos:
- Desgraçado, filho da...

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