Aconteceu na primeira eleição
direta de sua vida. Os mais velhos estavam sentados no sofá furado e o resto se
acomodou no carpete da salinha de TV. Sala apertada, coberta pela névoa dos
cigarros de seus pais. Ninguém havia percebido que faltava um integrante da
família por lá, mas ainda não havia nada de “ser-político” naquele pequeno de
quatro anos que se aventurava pela casa. Passou pelos corredores brancos, com a
pintura um pouco descascada - sua obra-prima - e chegou à cozinha. Viu o copo
em cima da mesa. Cheio de coca-cola. E tinha gelo! Os cubinhos de que ele tanto
gostava boiando naquela coca borbulhante. Refrescante.
Collor dava suas primeiras
palavras como Presidente e a sala se enchia de esperanças por um futuro melhor.
O pai aumentou o volume. Os eleitores
davam depoimentos emocionados. Talvez por isso não ouviram logo o choro do
pequeno. Mas foi o filho do meio, orgulhoso de seu primeiro voto vitorioso, que
levantou do sofá, olhou pelos lados e não sentiu aquela mãozinha pegajosa que
costumava brincar com sua calça jeans. Cadê, cadê? Abaixaram o volume da TV.
Aumentou-se o volume da cozinha, que chorava. Acharam o pequeno em meio à
coca-cola, cubos de gelo e sangue. Um pulso cortado, coitado, que nem tinha
culpa da mãe ter ensaboado a cozinha e corrido para ver o resultado das
eleições.
Os pontos foram dados, oito. Mas
o pequeno havia inaugurado os cortes da família: do orçamento da casa; dos pais
- sumindo um da vida do outro; da cabeça do já nem tão pequeno, ao escorregar
no boxe do chuveiro; das calças velhas; da nota do vestibular; dos gastos com o
cigarro; das minissaias da namorada; das operações da avó; dos cabelos brancos
da mãe.
Hoje esse menino grande compreende
que nem tudo fica aberto, inteiro ou comprido. Vive cercado de cola, agulha, linha,
fita crepe, zíper, fita isolante, velcro. Também usa saliva. Tudo para remendar
o coração tantas vezes partido.
2 comentários:
Este é o primeiro de muitos em 2013 e cada vez melhores. Adoro ler seus contos e ter o privilegio de reconhecer e relembrar momentos marcantes das nossas vidas... Te amo e admiro maninha!
Adoro ler seus contos e ter o privilegio de reconhecer e relembrar momentos marcantes de nossas vidas... Te amo e admiro maninha. Beijos Amanda
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