9.9.13

A água foi feita para regar, lavar o rosto, jogar a dentadura no final do dia. Ela ainda gosta muito de banho, de doce e de afeto. Primeiro não se lembrou de molhar as plantas, do que comeu ontem, “hoje é domingo?”. A dificuldade de andar lhe impediu de ir à missa. Mas rezava, sempre que alguém puxava o começo de uma. Rezava em latim. Depois passou a assobiar para chamar àqueles que não tinham mais nome. Quanta gente sem nome...
Seu pai está sempre no quarto, mas às vezes ele muda um pouco. Dizem pra ela que é seu filho, mas ela logo avisa que não é boba não, ninguém lhe engana! Outro dia, por exemplo, uma mulher apareceu em sua casa e lhe chamou mamãe, ela riu e disse “e eu lá sou sua mãe?” Ela confirmou, jurou, beijou sua mão. Era engraçado ser mãe de uma mulher mais velha do que ela.
Uma coçadinha nas costas sempre lhe cai bem. Tem uma menina baixinha que sempre aparece para ajudar. Outra lhe dá abraços longos. Outros mais aparecem e vão embora, mas sempre deixam afagos, beijos, apertões. Às vezes até irritam, “parece que não têm mais nada pra fazer“.
Ela ainda pensa muito, eu sei que sim.  No cavalo de sua madrinha, que roubava para voar pelas ruas de terra. Nos cigarros de folha de chuchu que fumava em cima do telhado. No namorado soldado, de Santos, e suas longas cartas pedindo para que ela lhe esperasse para casar. Mas esse ela logo trocou para ficar com aquele português do armazém, que tinha a mão forte.

Perder a memória não deixa de ser uma aventura. Num dia se colhe um “oi, mamãe”, e se descobre que tem logo uns oito filhos, dez irmãos, vinte netos e três bisnetos! Noutro, “coma seu almoço, é risoto, lembra que você gostava?” e lhe apresentam ao arroz, à abobrinha, ao bacalhau, que era um peixe. Sim, vovó, os peixes vivem na água. Eu sei que você gosta muito de água. Mas não quer beber? Não tem gosto de nada? Tudo bem, a gente enche de açúcar.

**texto escrito em abril de 2013.

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